sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Seria a legalização e mesmo oferta descomplicada pelo SUS do aborto um como que bem vindo genocídio preventivo de filhos da puta?

Por Régis Antônio Coimbra*

Não questiono a possibilidade de uma gravidez indesejada ser transmutada numa paternidade e maternidade responsável, até porque é a maioria dos casos de paternidade e maternidade "feliz" (apesar dos muitos ônus). Não deixo de ser fortemente contra o aborto. Questiono o efeito prático, cínico, utilitarista radical de uma tal oferta: "não quer gestar, parir, cuidar e educar, então aborta, por favor!"

Nesse tão machista impropério, não se questiona tanto a sexualidade da "puta", mas o caráter do filho dessa não exatamente puta. Sem dúvida, muitos transcendem o infeliz início como filho indesejado e, pior, pouco ou mal cuidado pela mãe, sem talvez nenhuma referência paterna. No entanto, "sem pai nem mãe", por mais resilientes que sejam as crianças, muitos adultos são severamente prejudicados em parte importante de sua socialização.

Talvez o problema nem seja a mãe rancorosa ou superprotetora, ou a ausência de um pai não raro mais simbólico do que presente. O maior problema pode estar no contexto de vulnerabilidade de mães jovens, em lares confusos, em bairros desamparados pelo estado e problematicamente protegidos pelos traficantes, ressalvados o fogo cruzado entre concorrentes.

A questão que resta, em todo caso, é se podemos assumir o genocídio de sabe-se-lá quantos filhos indesejados ou inconvenientes para evitar o surgimento de alguns (talvez 10% de) potenciais filhos da puta?

Minha posição é a aparentemente paradoxal defesa do aborto e mesmo de sua oferta descomplicada pelo SUS, ressalvado que sou forte e profundamente contra. Deve ser fácil de fazer e extremamente difícil de justificar; é importante que seja exacerbado como decisão difícil, embora, havendo a decisão pela mulher, ela seja extremamente fácil e segura.


*RÉGIS ANTÔNIO COIMBRA é 1º Vice-Presidente do Movimento Estudantil Liberdade. Filósofo e advogado formado pela UFRGS. Especialista em Direito e Economia e, atualmente, é Acadêmico da Licenciatura em Dança pela UFRGS e Professor no Colégio Tiradentes da Brigada Militar.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Não existe liberdade sem direito à autodefesa

Por Gabriel Afonso Marchesi Lopes*

O Brasil é um país com altos índices de criminalidade e violência, porém não será desarmando o cidadão de bem que iremos contornar estes problemas. O Estatuto do Desarmamento é altamente ineficaz no combate ao crime, afinal quem é que já viu algum bandido ou traficante entregando suas armas de livre e espontânea vontade só porque o Governo disse que eles não podiam tê-las? Assim, é melhor possuir uma arma e nunca usá-la, do que precisar de uma e não a ter. Logo, a melhor política de segurança é o respeito ao direito do cidadão ter uma arma.

Contra o bom senso, o Estatuto do Desarmamento é hoje um instrumento legal que protege o bandido, pois lhe dá a segurança para atacar as pessoas e seus bens tendo a certeza de que não terá uma reação, de que encontrará apenas indivíduos indefesos e submissos, podendo praticar seus ilícitos livremente. Esta segurança do bandido é um fator que incentiva o crime, já que quando o meliante não sabe se a vítima está ou não armada, ele tende a evitar o confronto com medo de levar um tiro. Portanto, quanto maior é a capacidade de reagir do cidadão, maior é o número de crimes evitados.

O que o Poder Público está fazendo é tirar do cidadão o direito de se defender dos criminosos. Esta é uma intervenção indevida, pois cabe apenas ao próprio indivíduo a decisão de possuir ou não uma arma, é algo de foro íntimo e que não deve ser colocado jamais sob a tutela do Estado. Além disso, todas as pessoas têm direito à autodefesa de sua vida e de seu patrimônio, ainda mais no cenário atual onde o Governo tem dado fortes demonstrações de que não é capaz de garantir a segurança de todos os cidadãos. Assim, tendo o cidadão o direito de se autodefender, não pode o Estado cercear o acesso aos instrumentos de defesa.

De fato, a presença de cidadãos armados faz com que seja criado um ambiente com menos crime e mais segurança, onde há mais liberdade, pois existe um componente de dissuasão resultante do fato de que pessoas armadas não estão aptas a defenderem somente a si mesmas, mas também são capazes de defender o próximo que esteja em situação de risco. Isto é incomodo para o Governo, pois demonstra que ele não é o único ente capaz de proteger os indivíduos, que possuem a capacidade de viver sem interferência estatal e esta capacidade define a liberdade do indivíduo. Deste modo, para sermos livres, não precisamos de mais restrições sobre a propriedade privada, como aquelas propostas pelo Estatuto do Desarmamento, pelo contrário, é importante revogar as restrições existentes.

Enfim, o Estatuto do Desarmamento não é eficaz no combate ao crime, pois os bandidos já estão armados e conseguem mais armas sempre que quiserem. É ingênuo e potencialmente letal acreditar que ao desarmar o cidadão de bem, o Estado irá também reduzir o acesso às armas pelos criminosos. O fato é que a posse e o porte de armas são direitos que devem ser assegurados a todo e qualquer cidadão que seja apto, isto é, que comprove aptidão técnica e psicológica, bem como, que não possua antecedentes criminais. No momento em que o Governo se mostra incapaz de conter a violência, cabe apenas ao próprio indivíduo a decisão de defender a si mesmo e não será o porte de uma arma que o tornará um criminoso. O desarmamento diminui a segurança e, pior, diminui a liberdade da população, pois não existe liberdade quando não se há meios para se defender, seja de um bandido seja de um Governo opressor.


*GABRIEL AFONSO MARCHESI LOPES é formado em Ciências Atuariais (UFRGS/2007) e em Estatística (UFRGS/2013), com Pós-Graduação em Perícia e Auditoria pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas em Contabilidade da UFRGS. Foi Professor na UFRGS nas disciplinas de Probabilidade e Estatística e de Estatística Geral.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A desigualdade é a solução para a miséria, não um problema social

Por Gabriel Afonso Marchesi Lopes*

Os socialistas apregoam que a desigualdade de renda é o cerne de todos os problemas sociais, todavia isto não passa de uma falácia, um engodo que não encontra sustentação concreta, pois a desigualdade é inerente ao ser humano, uma vez que é próprio do indivíduo ser diferente, o que é um fator que o motiva a melhorar de vida, se igualando aos melhores através dos próprios méritos. Assim, o verdadeiro problema não reside na desigualdade, mas na pobreza, que é a miserabilidade do indivíduo definida a partir de uma condição absoluta de escassez de bens básicos imprescindíveis para a manutenção da dignidade humana.

Dessa forma, o aumento da desigualdade, ou da também chamada má distribuição de renda, não pode ser um fator desestabilizador da economia e nem um gerador de pobreza, pois é parte fundamental de uma economia de mercado, estimulando o progresso social e o desenvolvimento econômico, já que em um sistema onde existe desigualdade o indivíduo busca maximizar seu próprio bem estar, sendo assim levado a poupar e buscar investimentos que atendam da maneira mais eficiente suas necessidades. A soma destas atitudes individuais gera um ganho de escala e é justamente este capital que acarreta uma melhora no padrão de vida da população.

Por outro lado, sendo a pobreza oriunda da falta de acesso do indivíduo à bens e serviços básicos, temos que ela é resultante de uma relação de mercado onde a demanda por estes itens supera em muito sua oferta, fazendo com que a escassez implique em uma elevação de preços de tal forma que o indivíduo não consiga se capitalizar (acumular riqueza) o suficiente para atender suas necessidades, restando em uma situação de penúria.

Disto, temos que a pobreza nasce da conjunção entre a baixa capacidade de poupança do indivíduo e a baixa produtividade da economia. A baixa capacidade de poupança é advinda da baixa renda, que é baixa porque os produtos possuem um preço elevado, que é elevado porque a produção é insuficiente, o que faz com que a demanda seja maior do que a oferta. Logo, o caminho lógico para reduzir a pobreza é aumentar a produtividade, porém para aumentar a produtividade é necessário capital, cuja uma das fontes é a poupança dos indivíduos, quase inexistente dentro deste cenário.

Todavia, voltemos a questão da desigualdade e verifiquemos que um indivíduo, motivado por ambições e desejos pessoais, poderá tentar fazer melhores escolhas e poupar parte da sua ainda que escassa renda, para que no futuro tenha uma vida mais digna. O capital poupado por este indivíduo representa um aumento na poupança de toda economia, que terá como reflexo o aumento da produtividade, que implicará em uma redução da pobreza.

Portanto, ainda que haja um indivíduo em melhor condição de vida que os demais, o que significa que existe maior desigualdade, a pobreza geral diminuiu. Ou seja, a desigualdade não é um problema social, mas sim a solução para o verdadeiro problema da sociedade que é a pobreza, o que nos remete para uma cena dos anos 80, quando um deputado do parlamento inglês criticou a primeira ministra britânica Margaret Thatcher dizendo que em seu governo a desigualdade aumentou e que o abismo entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres era maior do que antes, no que a Dama de Ferro calmamente lhe respondeu: "Senhor deputado, todos os níveis financeiros estão melhores do que estavam em 1979. O que o honrado membro está falando é que preferia que os pobres fossem mais pobres, para que os ricos fossem menos ricos".


*GABRIEL AFONSO MARCHESI LOPES é formado em Ciências Atuariais (UFRGS/2007) e em Estatística (UFRGS/2013), com Pós-Graduação em Perícia e Auditoria pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas em Contabilidade da UFRGS. Foi Professor na UFRGS nas disciplinas de Probabilidade e Estatística e de Estatística Geral.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

A quem interessa desdenhar da meritocracia?

Por Guy Franco

Nunca vi a sociedade tão mobilizada para tripudiar da meritocracia. Hoje, não só os membros de movimentos sindicais levantam cartazes na rua contra o sistema, qualquer jovem barbudo com um canal no youtube faz o mesmo - e em plena luz do dia. Dão chiliques, relincham, fazem cara de tuberculose quando ouvem a palavra meritocracia. Pega bem desdenhar da besta. A competência está fora de moda.

Os opositores, me parece, reagem sem ver as gradações da questão. Não é possível que não concordem que recompensar uma pessoa pela eficiência seja um incentivo para o bom trabalho. Também nunca ouvi falar de alguém que recusou um aumento de salário porque considerava injusto receber mais pelos próprios méritos.

Reconhecer e promover os melhores profissionais é fundamental. Que se discuta os critérios de avaliação, mas o mérito é importante. Nada mais natural do que recompensá-lo. Não há vergonha nenhuma em defender isso.

Os opositores falam de exclusão, de “darwinismo social”. Há um fator ausente aí: ainda que a meritocracia seja excludente, impugnando a mediocridade, a sociedade como um todo não se beneficiaria de hospitais e escolas cujos médicos e professores fossem os mais capacitados? Por que seria diferente com as outras profissões?

Defender a meritocracia não quer dizer que não se reconheça os níveis desiguais de onde cada pessoa começa a vida (a classe social, cor da pele, sexo, etc), mas apenas o reconhecimento de que é um meio possível e justo (não o único, nem o mais fácil) de ascender socialmente.

Defender a meritocracia e combater a desigualdade não são coisas excludentes. E ainda que a meritocracia perpetue uma desigualdade, esta será um efeito colateral positivo, pois será baseada no mérito e não na arbitrariedade.

E aqui vou usar uma frase de Eduardo Giannetti: “A questão crucial é: a desigualdade observada reflete essencialmente os talentos, esforços e valores diferenciados dos indivíduos ou, ao contrário, ela resulta de um jogo viciado na origem, de uma profunda falta de equidade nas condições iniciais de vida, da privação de direitos elementares e/ou discriminação racial, sexual ou religiosa?”

O vizinho de blog Flávio Moura comentou sobre o silêncio dos liberais em relação a um artigo da The Economist que mostra como os mais ricos costumam ser os mais beneficiados pela meritocracia. Na verdade, essa é uma questão que tem ocupado os liberais há muito tempo. Queria reabilitar aqui um trecho de Hayek:

“…se uma invenção acidental se torna extremamente útil para os demais, o fato de que tenha pouco mérito não a torna menos valiosa do que se tivesse resultado de grande sacrifício pessoal.”

Há muito tempo que os liberais reconhecem que o mérito não é apenas resultado de grande esforço. E há muito tempo que estudam soluções de política pública para consertar eventuais desigualdades e diminuir a pobreza. Basta ler Milton Friedman - o liberal dos liberais - que encontrará nele as raízes do Bolsa Família e do Prouni, por exemplo.

“Meritocracia para quem, cara-pálida? 

Nossos liberais mereciam estudar um pouco mais.”

Os nossos liberais estudaram. Um deles é Ricardo Paes de Barros, formado pela escola de Chicago, e que foi líder de um grupo de economistas liberais responsável pela concepção técnica do Bolsa Família. As ideias liberais, no entanto, foram malhadas pela esquerda. Quem se lembra da resistência do PT na época? A proposta de focalização de combate à pobreza era tida como uma ameaça “neoliberal” e foi bastante hostilizada pelo partido. Hoje, o PT tenta apagar o passado liberal, as raízes chicaguistas por trás do projeto. Ao tentar apagar o nome das mentes responsáveis por trás do Bolsa Família (inclusive tirando o nome de Ricardo Paes de Barros, o pai do projeto, de sites do governo), fica fácil afirmar o que quiser e desdenhar de liberais.

A nossa esquerda merecia estudar um pouco mais os liberais.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Não se faz educação sem investimento

Por Gabriel Afonso Marchesi Lopes*

Dilma tomou posse em seu segundo mandato anunciando que seu governo teria como lema “Brasil, Pátria Educadora”, logo em seguida anunciou o corte de R$600 milhões mensais das universidades federais. Em 2011, Cid Gomes, agora nomeado Ministro da Educação, disse que professor “deve trabalhar por amor, não por dinheiro”, e ainda completou: “quem quer dinheiro deve procurar outra profissão”. Ocorre que os cortes afetam não apenas os salários dos docentes, mas também os serviços e a infraestrutura educacional do país.

A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde lecionei como Professor Substituto no ano passado, assim como muitas outras Universidades Federais, vem padecendo com a falta de investimentos. Houve uma grande expansão do corpo discente, a partir, sobretudo, do atendimento de metas do REUNI, com a criação de novos cursos e aumento da oferta de vagas nos cursos já existentes, porém não houve a devida contrapartida em termos de investimentos.

Em 2012, o Teatro do Departamento de Artes Dramáticas - Sala Alziro Azevedo – foi interditado por risco de incêndio, em razão de problemas na precária rede elétrica. No ano seguinte, o Restaurante Universitário do Campus do Vale foi fechado pela Coordenadoria Geral de Vigilância em Saúde (CGVS) de Porto Alegre por falta de condições sanitárias adequadas e, logo em seguida, o rompimento de um cano no prédio onde fica a Biblioteca Setorial das Ciências Sociais e Humanidades (BSCSH) provocou o alagamento de parte do acervo de quase 200 mil volumes do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH).

O ano de 2014 não foi diferente, em junho foi inaugurado o novo prédio de salas de aula da UFRGS, conhecido como Prédio Branco. Durante a cerimônia constatou-se que as escadas do mesmo estavam escoradas com vigas de madeira, unidas com pedaços de pano. Além disso, havia rachaduras e trincas em várias partes do prédio. Sem surpresa, o Ministério Público Federal, com base em laudos técnicos apontando que o local apresentava problemas de construção que colocavam em risco a vida e a integridade física de estudantes, professores, servidores e pessoas que frequentam o prédio, pediu a interdição do Prédio Branco apenas 4 meses após a inauguração.

Houve novamente problemas nos Restaurantes Universitários e um caldeirão no RU do Campus do Vale explodiu ferindo gravemente quatro funcionários. Relatos e fotos mostraram que o local, que já havia sido fechado pela Vigilância Sanitária em 2012, apresentava condições precárias e o risco de um acidente era iminente. Como todos os RUs usavam o mesmo modelo de caldeirão para o preparo de feijão, o alimento deixou de ser servido aos estudantes até o final do ano. Ainda, novamente por problemas de infraestrutura, houve o alagamento do prédio do Instituto de Letras e as aulas tiveram que ser suspensas.

Agora, mal começou o ano de 2015 e as escadarias do Instituto de Matemática (IM), que levam até os gabinetes dos professores do Departamento de Matemática Pura e Aplicada e do Departamento de Estatística, foram interditadas por risco de desabamento. Considerando que os prédios daquele setor do Campus do Vale datam da mesma época e foram construídos de maneira similar, não se pode descartar a possibilidade do mesmo problema afetar as escadaria e prédios dos demais institutos. Além disso, há muito já se ouve sobre problemas de goteiras e de energia nos gabinetes do IM.

Desta forma, é contraditório e hipócrita falar em “Pátria Educadora” quando se corta os investimentos em Educação que são imprescindíveis para que não se criem situações como aquelas vistas na UFRGS, onde temos um curso de teatro sem teatro, falta de salas de aulas por interdição de um prédio recém inaugurado, professores que não podem acessar seus gabinetes e um restaurante reprovado pela Vigilância Sanitária. Para se educar é necessário investir em infraestrutura, pois não é superlotando uma sala de aula precária que teremos, milagrosamente, as mentes e os profissionais capacitados e fundamentais para o progresso nacional.


*GABRIEL AFONSO MARCHESI LOPES é formado em Ciências Atuariais (UFRGS/2007) e em Estatística (UFRGS/2013), com Pós-Graduação em Perícia e Auditoria pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas em Contabilidade da UFRGS. Atuou como Docente em Probabilidade e Estatística na UFRGS e como Monitor Acadêmico em diversas disciplinas do Departamento de Estatística e do Departamento de Matemática Pura e Aplicada da UFRGS.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A importância da Matemática para a cidadania e para o progresso nacional

Por Gabriel Afonso Marchesi Lopes*

Na 10ª Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) que, entre outros objetivos, busca fortalecer o ensino de matemática e despertar nos alunos o gosto pela matemática e pela ciência em geral, o Rio Grande do Sul obteve o primeiro lugar e segundo lugar no nível II e primeiro lugar no nível III. De um modo geral, o estado teve 36 medalhas de ouro, 87 medalhas de prata e 211 medalhas de bronze.

O saber matemático é fundamental para a progressiva evolução científica e tecnológica da Nação, sendo indispensável para o desenvolvimento pessoal, profissional e econômico das pessoas.

Segundo o Conde Bertrand Russell, um dos mais influentes matemáticos, filósofos e lógicos que viveram no século XX: "A matemática, vista corretamente, possui não apenas verdade, mas também suprema beleza - uma beleza fria e austera, como a da escultura".

Infelizmente, ainda que hajam importantes iniciativas como a OBMEP, o ensino matemático no Brasil é bastante negligenciado. Conforme a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o país ocupa o 38° lugar entre os 44 países avaliados pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), que testa a habilidade de estudantes em resolver problemas de raciocínio lógico.

O resultado do exame mostrou que apenas 2% dos alunos brasileiros conseguiram resolver problemas de matemática mais complexos.

O fato é que a maioria dos brasileiros não domina habilidades matemáticas nem mesmo para as tarefas cotidianas, só conseguem ler preços, ver a hora, anotar números de telefone e verificar calendários, mas não são capazes, por exemplo, de ler gráficos publicados na mídia e de resolver problemas que exigem mais de um passo e cálculo proporcional.

O ensino brasileiro deve trabalhar com mais consistência na educação matemática, pois as pessoas precisam de condições para serem mais críticas em relação as informações que recebem. O pensamento matemático é tão necessário para o exercício eficiente da cidadania como ler e escrever, o que torna o analfabetismo numérico um problema gravíssimo.

Este é um problema de país e revertê-lo exige a diversificação do itinerário dos estudantes, dando maior significação aos conteúdos estudados através de uma uniformização entre a teoria e a prática, isto é, através de uma articulação entre o que é aprendido na escola e o que a sociedade realmente exige, possibilitando que o cidadão possa construir soluções, através de seus conhecimentos matemáticos, para problemas dentro de situações do cotidiano.

A sociedade atual exige uma postura holística que explore as situações problemas através de uma linguagem capaz de traduzir a realidade. Capacidades de análise e abstração devem ser valorizadas para além daquelas de simples memorização de fórmulas, de maneira que se estimule o questionamento do problema. Não pode haver um descompasso entre o mundo moderno e os currículos de matemática.

Enfim, a matemática está presente em toda a sociedade, sendo fundamental para o exercício de todas as profissões e para o exercício da própria cidadania. Deste modo, as mentes precisam ser estimuladas através de uma ponte entre o conhecimento teórico e a prática, de forma que se desperte o interesse pela matemática em todo o país e esta torne as pessoas mais críticas e conscientes, aptas à tomarem melhores decisões para si e para a população como um todo, pois o conhecimento é fundamental para a existência e progresso da Nação.


*GABRIEL AFONSO MARCHESI LOPES é formado em Ciências Atuariais (UFRGS/2007) e em Estatística (UFRGS/2013), com Pós-Graduação em Perícia e Auditoria pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas em Contabilidade da UFRGS. Atuou como Docente em Probabilidade e Estatística na UFRGS e como Monitor Acadêmico em diversas disciplinas do Departamento de Estatística e do Departamento de Matemática Pura e Aplicada da UFRGS.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Veni, vidi, vici

Ascensão e queda do “DCE de Verdade”

As eleições para o Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (DCE/UFRGS) terminaram ontem, dia 20 de novembro, com um resultado surpreendente, qual seja: a maior derrota já sofrida por uma chapa de situação no movimento estudantil universitário.

Ainda que se possa apontar muitos motivos para tal resultado, o que se sobressai em relação aos demais é a desonestidade e a falta de honra do “DCE de Verdade”, grupo que foi eleito no ano passado a partir de uma construção com diversas bases, entre as quais o Movimento Estudantil Liberdade. Todavia, uma vez eleito o “DCE de Verdade” se apressou em atacar justamente aqueles que o apoiaram, que o ajudaram a assumir o comando da entidade máxima dos estudantes na UFRGS.

A gestão, de maneira egoísta, se pautou pela máxima do maquiavelismo a partir da qual se considera que que entre seus inimigos estão companheiros, isto é, que devem ser repelidos mesmo aqueles companheiros mais próximos, que te ajudaram a ali chegar, para manter o poder. Dessa forma, não há como não traçar um paralelo entre tal atitude e aquela do Grande Expurgo de Stálin, que para consolidar sua posição liquidou cerca de dois terços dos quadros do Partido Comunista da URSS.

Ocorre que, por incrível que pareça, o “DCE de Verdade”, apesar de fortemente pautado pela oposição ao coletivismo e pela exaltação ao individualismo, olvidou-se da força que tem um único indivíduo que entendeu que a injusta traição que sofrera não poderia jamais ficar impune e traçou como objetivo a redenção do Movimento Estudantil Liberdade através da elucidação da verdade sobre os fatos.

Assim, a peleia estava armada. De um lado, os traidores arrogantes que, apesar de serem muitos, eram estúpidos e pouco inteligentes, de outro um e apenas um estrategista extremamente habilidoso, que inclusive teve seus feitos reconhecidos por membros da gestão “DCE de Verdade” que lhe imputaram a alcunha de “Gênio do Mal”, talvez um trocadilho relativo à sigla MEL (Movimento Estudantil Liberdade).

Outrora, em nossa história, tivemos a figura de Carlos Lacerda, jornalista e político, que ficou conhecido como “derruba-presidentes” por sua participação em ações que levaram o fim ao mandato de dirigentes nacionais como Getúlio Vargas, Jânio Quadros e João Goulart. Não se pode afastar certo lacerdismo no caso do DCE da UFRGS, no que cabe lembrar que o presidente Juscelino Kubitschek impediu que Lacerda tivesse concessão de canais de televisão, afirmando, anos após seu governo, que se permitisse isto poderia ter lhe custado a Presidência. 

Felizmente (ou infelizmente para alguns), os gestores do “DCE de Verdade” não possuíam a visão de Kubitschek e eram pessoas ignorantes que sofreram os primeiros golpes do contra-ataque em razão justamente de sua falta de habilidade em lidar com a imprensa, imperícia esta que perdurou por toda a gestão e que foi fundamental para seu fim. De fato, havia uma briga de egos que impedia que enxergassem além de um palmo.

Além disso, o “DCE de Verdade” teve falhas crassas para além das traições. Falhas que comprometeram seu próprio discurso e sua credibilidade junto aos estudantes. O grupo se elegeu sob a égide do apartidarismo, porém tão-logo foi eleito e já nomeou Daniel Franco Martins, do PDT, como conselheiro no Conselho de Curadores (CONCUR). Criticava durante a ausência de prestação de contas de outras gestões, mas também não apresentou prestação de contas, que é semestral e não anual segundo o Estatuto da entidade. Abraçou a bandeira da representação discente atuante, reclamando dos RDs dos demais grupos políticos da UFRGS que perdiam os mandatos por não irem nas reuniões, porém seus RDs Carlos Marcelo Velloso Wendt e Lucas Scherer Gomes também perderam seus mandatos na Câmara de Extensão (CAMEX) por descumprimento do número máximo de faltas não justificadas.

Em meados de 2014 a situação era insustentável e levou membros do “DCE de Verdade” a pedirem uma trégua ao Movimento Estudantil Liberdade e, novamente solicitar sua ajuda, que mais uma vez foi dada. Porém, um velho ditado gaudério diz que “cachorro mordido de cobra tem medo de linguiça!”, logo, prevendo nova traição por parte dos membros do “DCE de Verdade”, foram feitos registros para que os estudantes não fossem novamente enganados. E foi dito e feito: com a regularização da situação, o “DCE de Verdade” votou a trair o Movimento Estudantil Liberdade. Mas já era tarde demais.

A cartada final do “DCE de Verdade” foi abrir um processo com informações e alegações falsas contra o MEL com o objetivo de calar o grupo durante as eleições para o DCE. Não deu certo. O Juiz Luiz Augusto Guimarães de Souza indeferiu a antecipação de tutela. Recorreram. O Desembargador Túlio de Oliveira Martins negou provimento ao recurso alegando que a prova trazida aos autos era deficiente. Entraram com agravo. A Décima Câmara Cível do Tribunal de Justiça negou provimento ao agravo informando que não veio aos autos qualquer elemento ou argumentação no sentido de alterar a decisão agravada.

Fanfa fala sobre esquemas envolvendo festas do DCE
(clique para ampliar)
No dia 06 de novembro de 2014, áudios de conversas entre membros da gestão “DCE de Verdade” com o Presidente do MEL vazam na internet. O Vice-Presidente do DCE da UFRGS Jardel Tessari, estudante de Medicina, renuncia. No dia 10 de novembro, novos áudios caem na internet e o Diretor de Esportes do DCE da UFRGS, Fábio Borges Fanfa, que disputava as eleições pela chapa 1, pleiteando o cargo de Diretor de Infraestrutura, pede desligamento da chapa e denuncia um esquema envolvendo festas organizadas pelo “DCE de Verdade”.

Finalmente, no dia 11 de novembro, com mais uma divulgação de áudios entre membros da gestão “DCE de Verdade”, Coordenadores-Gerais da Chapa 1, e membros do Movimento Estudantil Liberdade, a gestão do DCE da UFRGS vê que não é mais possível sustentar a mentira que criaram e, em nota oficial, assinada pela então Executiva do DCE, Lucas Herbert Jones (Presidente), Jardel Pereira Tessari (1º Vice-Presidente até 10/11/14), Bernardo de Abreu Bortoluzzi (2º Vice-Presidente), Renato Augusto Rabuske Zülke (Secretário-Geral) e Fábio Borges Fanfa (Diretor de Esportes) admitem que houve sim relações entre membros do “DCE de Verdade” (gestão 2014) e membros do MEL/DCE Livre. Assim, a gestão do DCE capitulou e a verdade finalmente veio à tona.

As eleições para o DCE da UFRGS ocorreram nos dias 18, 19 e 20 de novembro. O resultado foi sabido na madrugada do dia 21: A Chapa 1 – DCE de Verdade: Nosso partido é o estudante 2.0, que representava a situação, sofreu a maior e mais vergonhosa e humilhante derrota de uma chapa situacionista na história do movimento estudantil da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Houve muitas vitórias nesta eleição, mas sem sobra de dúvidas a maior delas foi do Movimento Estudantil Liberdade, que provou ser inocente em relação às acusações que sofrera por parte do “DCE de Verdade”. Que provou ter sido usado pelos membros do “DCE de Verdade” e que foi traído pelos mesmos, apunhalado pelas costas e que, mesmo assim, voltou, lutou o bom combate, venceu e lavou sua honra.

Escute os áudios das conversas entre o DCE de Verdade e o DCE Livre:
Parte 1: https://www.youtube.com/watch?v=24ktxzOSK8M
Parte 2: https://www.youtube.com/watch?v=ShyaVxNIkmg
Parte 3: https://www.youtube.com/watch?v=vMsXs7HVQcA

sábado, 25 de outubro de 2014

Youssef: “O Planalto sabia de tudo!” Delegado: “Quem do Planalto?” Youssef: “Lula e Dilma”

O doleiro Alberto Youssef afirma em depoimento à Polícia Federal que o ex e a atual presidente da República não só conheciam como também usavam o esquema de corrupção na Petrobras


EM VÍDEO - As declarações de Youssef sobre Lula e Dilma
foram prestadas na presença de um delegado, um procurador
da República e do advogado (Ilustração Lézio Jr./VEJA)
A Carta ao Leitor desta edição termina com uma observação altamente relevante a respeito do dever jornalístico de publicar a reportagem a seguir às vésperas da votação em segundo turno das eleições presidenciais: “Basta imaginar a temeridade que seria não publicá-la para avaliar a gravidade e a necessidade do cumprimento desse dever”. VEJA não publica reportagens com a intenção de diminuir ou aumentar as chances de vitória desse ou daquele candidato. VEJA publica fatos com o objetivo de aumentar o grau de informação de seus leitores sobre eventos relevantes, que, como se sabe, não escolhem o momento para acontecer. Os episódios narrados nesta reportagem foram relatados por seu autor, o doleiro Alberto Youssef, e anexados a seu processo de delação premiada. Cedo ou tarde os depoimentos de Youssef virão a público em seu trajeto na Justiça rumo ao Supremo Tribunal Federal (STF), foro adequado para o julgamento de parlamentares e autoridades citados por ele e contra os quais garantiu às autoridades ter provas. Só então se poderá ter certeza jurídica de que as pessoas acusadas são ou não culpadas.


Na última terça-feira, o doleiro Alberto Youssef entrou na sala de interrogatórios da Polícia Federal em Curitiba para prestar mais um depoimento em seu processo de delação premiada. Como faz desde o dia 29 de setembro, sentou-se ao lado de seu advogado, colocou os braços sobre a mesa, olhou para a câmera posicionada à sua frente e se pôs à disposição das autoridades para contar tudo o que fez, viu e ouviu enquanto comandou um esquema de lavagem de dinheiro suspeito de movimentar 10 bilhões de reais. A temporada na cadeia produziu mudanças profundas em Youssef. Encarcerado des­de março, o doleiro está bem mais magro, tem o rosto pálido, a cabeça raspada e não cultiva mais a barba. O estado de espírito também é outro. Antes afeito às sombras e ao silêncio, Youssef mostra desassombro para denunciar, apontar e distribuir responsabilidades na camarilha que assaltou durante quase uma década os cofres da Petrobras. Com a autoridade de quem atuava como o banco clandestino do esquema, ele adicionou novos personagens à trama criminosa, que agora atinge o topo da República.

Comparsa de Youssef na pilhagem da maior empresa brasileira, o ex-diretor Paulo Roberto Costa já declarara aos policiais e procuradores que nos governos do PT a estatal foi usada para financiar as campanhas do partido e comprar a fidelidade de legendas aliadas. Parte da lista de corrompidos já veio a público. Faltava clarear o lado dos corruptores. Na ter­ça-feira, Youssef apre­sentou o pon­­to até agora mais “estarrecedor” — para usar uma expressão cara à pre­sidente Dilma Rous­seff — de sua delação premiada. Perguntado sobre o nível de comprometimento de autoridades no esquema de corrupção na Petrobras, o doleiro foi taxativo:

— O Planalto sabia de tudo!

— Mas quem no Planalto? — perguntou o delegado.

— Lula e Dilma — respondeu o doleiro.

Para conseguir os benefícios de um acordo de delação premiada, o criminoso atrai para si o ônus da prova. É de seu interesse, portanto, que não falsifique os fatos. Essa é a regra que Yous­sef aceitou. O doleiro não apresentou — e nem lhe foram pedidas — provas do que disse. Por enquanto, nesta fase do processo, o que mais interessa aos delegados é ter certeza de que o de­poente atuou diretamente ou pelo menos presenciou ilegalidades. Ou seja, querem estar certos de que não lidam com um fabulador ou alguém interessado apenas em ganhar tempo for­necendo pistas falsas e fazendo acu­sações ao léu. Youssef está se saindo bem e, a exemplo do que se passou com Paulo Roberto Costa, o ex-diretor da Petrobras, tudo indica que seu processo de delação premiada será homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Na semana passada, ele aumentou de cerca de trinta para cinquenta o número de políticos e autoridades que se valiam da corrupção na Petrobras para financiar suas campanhas eleitorais. Aos investigadores, Youssef detalhou seu papel de caixa do esquema, sua rotina de visitas aos gabinetes poderosos no Executivo e no Legislativo para tratar, em bom português, das operações de lavagem de dinheiro sujo obtido em transações tenebrosas na estatal. Cabia a ele expatriar e trazer de volta o dinheiro quando os envolvidos precisassem.

Uma vez feito o acordo, Youssef terá de entregar o que prometeu na fa­se atual da investigação. Ele já con­tou que pagava em nome do PT mesadas de 100 000 a 150 000 reais a parlamentares aliados ao partido no Congresso. Citou nominalmente a ex-mi­nistra da Casa Civil Gleisi Hoff­mann, a quem ele teria repassado 1 mi­lhão de reais em 2010. Youssef disse que o dinheiro foi entregue em um shopping de Curitiba. A senadora ne­gou ter sido beneficiada.

Entre as muitas outras histórias consideradas convincentes pelos investigadores e que ajudam a determinar a alta posição do doleiro no esquema — e, consequentemente, sua relevância pa­ra a investigação —, estão lembranças de discussões telefônicas entre Lula e o ex-deputado José Janene, à época líder do PP, sobre a nomeação de operadores do partido para cargos estratégicos do governo. Youssef relatou um episódio ocorrido, segundo ele, no fim do governo Lula. De acordo com o doleiro, ele foi convocado pelo então presidente da Petrobras, Sergio Gabrielli, para acalmar uma empresa de publicidade que ameaçava explodir o esquema de corrupção na estatal. A empresa quei­xa­va-­se de que, depois de pagar de forma antecipada a propina aos políticos, tive­ra seu contrato rescindido. Homem da confiança de Lula, Gabrielli, segundo o doleiro, determinou a Youssef que captasse 1 milhão de reais entre as empreiteiras que participavam do petrolão a fim de comprar o silêncio da empresa de publicidade. E assim foi feito.

Gabrielli poderia ter realizado toda essa manobra sem que Lula soubesse? O fato de ter ocorrido no governo Dilma é uma prova de que ela estava conivente com as lambanças da turma da estatal? Obviamente, não se pode condenar Lula e Dilma com base apenas nessa narrativa. Não é disso que se trata. Youssef simplesmente convenceu os investigadores de que tem condições de obter provas do que afirmou a respeito de a operação não poder ter existido sem o conhecimento de Lula e Dilma — seja pelos valores envolvidos, seja pelo contato constante de Paulo Roberto Costa com ambos, seja pelas operações de câmbio que fazia em favor de aliados do PT e de tesoureiros do partido, seja, principalmente, pelo fato de que altos cargos da Petrobras envolvidos no esquema mudavam de dono a partir de ordens do Planalto.

Os policiais estão impressionados com a fartura de detalhes narrados por Youssef com base, por enquanto, em sua memória. “O Vaccari está enterrado”, comentou um dos interrogadores, referindo-se ao que o do­leiro já narrou sobre sua parceria com o tesoureiro nacional do PT, João Vaccari Neto. O doleiro se comprometeu a mostrar documentos que comprovam pelo menos dois pagamentos a Vaccari. O dinheiro, desviado dos cofres da Petrobras, teria sido repassado a partir de transações simuladas entre clientes do banco clandestino de Youssef e uma empresa de fachada criada por Vaccari. O doleiro preso disse que as provas desses e de outros pagamentos estão guardadas em um arquivo com mais de 10 000 notas fiscais que serão apresentadas por ele como evidências. Nesse tesouro do crime organizado, segundo Youssef, está a prova de uma das revelações mais extraordinárias prometidas por ele, sobre a qual já falou aos investigadores: o número das contas secretas do PT que ele operava em nome do partido em paraísos fiscais. Youssef se comprometeu a ajudar a PF a localizar as datas e os valores das operações que teria feito por instrução da cúpula do PT.

Depois da homologação da de­lação premiada, que parece assegurada pelo que ele disse até a semana passada, Youssef terá de apresentar à Justiça mais do que versões de episódios públicos envolvendo a presidente. Pela posição-chave de Youssef no esquema, os investigadores estão con­fiantes em que ele produzirá as provas necessárias para a investigação prosseguir. Na semana que vem, Alberto Youssef terá a oportunidade de relatar um episódio ocorrido em março deste ano, poucos dias antes de ser preso. Youssef dirá que um integrante da ­coor­­denação da campanha presidencial do PT que ele conhecia pelo nome de “Felipe” lhe telefonou para marcar um encontro pessoal e adiantou o assunto: repatriar 20 milhões de reais que seriam usados na cam­panha presidencial de Dilma Rous­seff. Depois de verificar a origem do telefonema, Youssef marcou o encontro que nunca se concretizou por ele ter se tornado hóspede da Polícia Federal em Curitiba. Procurados, os defensores do doleiro não quiseram comentar as revelações de Youssef, justificando que o processo corre em segredo de Justiça. Pelo que já contou e pelo que promete ainda entregar aos investigadores, Youssef está materializando sua amea­ça velada feita dias atrás de que iria “chocar o país”.

DINHEIRO PARA O PT 

João Vaccari Neto, homem forte da campanha de Dilma
Alberto Youssef também voltou a detalhar os negócios que mantinha com o tesoureiro nacional do PT, João Vaccari Neto, homem forte da campanha de Dilma e conselheiro da Itaipu Binacional. Além de tratar dos interesses partidários com o dirigente petista, o doleiro confi rmou aos investigadores ter feito pelo menos duas grandes transferências de recursos a Vaccari. O dinheiro, de acordo com o relato, foi repassado a partir de uma simulação de negócios entre grandes companhias e uma empresa-fantasma registrada em nome de laranjas mas criada pelo próprio Vaccari para ocultar as operações. Ele nega.

ENTREGA NO SHOPPING

Ex-ministra da Casa Civil Gleisi Hoffmann (PT-PR)
Alberto Youssef confirmou aos investigadores o que disse o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa sobre o dinheiro desviado da estatal para a campanha da exministra da Casa Civil Gleisi Hoffmann (PT-PR) ao Senado, em 2010. Segundo ele, o repasse dos recursos para a senadora petista, no valor de 1 milhão de reais, foi executado em quatro parcelas. As entregas de dinheiro foram feitas em um shopping center no centro de Curitiba. Intermediários enviados por ambos entregaram e receberam os pacotes. Em nota, a senadora disse que não recebeu nenhuma doação de campanha nem conhece Paulo Roberto Costa ou Alberto Youssef

ELE TAMBÉM SABIA

Presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli
Durante o segundo mandato de Lula, o doleiro contou que foi chamado pelo presidente da Petrobras, José sergio Gabrielli, para tratar de um assunto que preocupava o Planalto. Uma das empresas com contratos de publicidade na estatal ameaçava revelar o esquema de cobrança de pedágio. Motivo: depois de pagar propina antecipadamente, a empresa teve seu contrato rescindido. Ameaçado pelo proprietário, Gabrielli pediu ao doleiro que captasse 1 milhão de reais com as empreiteiras do esquema e devolvesse a quantia à empresa de publicidade. Gabrielli não quis se pronunciar

CONTAS SECRETAS NO EXTERIOR

Suspeitas concretas da existência de dinheiro escondido em
paraísos fiscais
Desde que Duda Mendonça, o marqueteiro da campanha de Lula em 2002, admitiu na CPI dos Correios ter recebido pagamentos de campanha no exterior (10 milhões de dólares), pairam sobre o partido suspeitas concretas da existência de dinheiro escondido em paraísos fi scais. Para os interrogadores de Alberto Youssef, no entanto, essas dúvidas estão começando a se transformar em certeza. O doleiro não apenas confi rmou a existência das contas do PT no exterior como se diz capaz de ajudar a identifi cá-las, fornecendo detalhes de operações realizadas, o número e a localização de algumas delas.


UM PERSONAGEM AINDA OCULTO

20 milhões de reais que seriam usados no caixa eleitoral
O doleiro narrou a um interlocutor que seu esquema criminoso por pouco não atuou na campanha presidencial deste ano. Nos primeiros dias de março, Youssef recebeu a ligação de um homem, identifi cado por ele apenas como “Felipe”, integrante da cúpula de campanha do PT. Ele queria os serviços de Youssef para repatriar 20 milhões de reais que seriam usados no caixa eleitoral. Youssef disse que chegou a marcar uma segunda conversa para tratar da operação, mas o negócio não foi adiante porque ele foi preso dias depois. Esse trecho ainda não foi formalizado às autoridades.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Comunistas de boutique

Por Régis Antônio Coimbra*

Considero injusto criticar candidatos que supõe ser comunistas por não entenderem Marx. Marx é para especialistas. Mas há comentadores que podem ajudar a entender a teoria dele. Resumindo, calcado nos economistas clássicos, notadamente David Ricardo, Marx considerou que a tendência do proletariado à rendas de quase estrita subsistência decorria não só do fato de que os incrementos de renda que o capitalismo trazia aos proletários tendia a ser consumida por um número maior de filhos que sobreviviam (e, sobrevivendo, consumiam em comida e outros itens de quase estrita sobrevivência, os acréscimos de renda que obtinham no capitalismo mais do que em qualquer outro momento histórico), mas também da exploração pelos capitalistas, que se apropriavam da mais valia.

Nisso, o principal e mais fundamental erro de Marx: ele não reconhecia o tanto que o capitalista, seja ao administrar um negócio, seja ao administrar riscos no investimento do puro capital financeiro (momento Luciana Genro...), agregavam valor à produção, nem que fosse ajudando quem produz a encontrar quem precisa (e pode...) consumir - o papel do comerciante.

O segundo grave erro de Marx foi supor que o capitalismo seria para sempre do modo como ele o "fotografou", com o que ele identificou como um desequilíbrio entre o crescimento populacional proporcional e absoluto do proletariado, e pelo menos proporcional dos burgueses (os capitalistas) e pequeno-burgueses (os lacaios dos burgueses... o mais próximo de classe média que Marx teorizou mais em detalhe). Isso envolvia também um problema de desequilíbrio entre a capacidade de produção, crescente, e a capacidade de consumo, que Marx identificava como restrita à burguesia e pequena burguesia, numericamente insignificante e cada vez menos significante (menos, ao menos proporcionalmente, numerosa em relação ao proletariado), o que levaria a crises cada vez maiores e mais graves de superprodução e subconsumo.

O primeiro erro (sobre a expropriação da mais valia) é teórico e é parcial. De fato, o burguês tem vantagens de negociação com a mão de obra não especializada e, nisso, leva vantagens. Mas é um erro insanável quanto ao não reconhecimento do trabalho do empresário ou capitalista (do especulador financeiro, como diria Luciana genro).

O segundo erro é histórico. Marx chegou a acompanhar detidamente o movimento cartista pelo qual, na Inglaterra, foram institucionalizados direitos como que trabalhistas e de crianças. Ainda durante seu tempo de vida (em sua última década), na Alemanha, no sistema de civil law ou do dito sistema romano-germânico de direito (mais parecido com o nosso), foram criadas as primeiras leis "trabalhistas" (primeiro dos acidentes de trabalho, em seguida direitos mais propriamente trabalhistas). Isso é, viu surgir já a social-democracia e a construção algo acelerada de uma classe média com considerável poder de consumo - adaptação do capitalismo ao problema estrutural do descompasso da capacidade de produção sem mercados consumidores proporcionais.

Que Marx tenha cometido esses erros em nada diminui seu gênio, limitado pelo conhecimento de seu tempo e apenas parcialmente por seu... mau gênio. Sua crítica ainda é válida ao denunciar a dura diferença entre as posições do trabalhador assalariado ou mesmo pequeno empresário cuja renda se limita à mais ou menos estrita subsistência (sem possibilidade de poupar de modo significativo) e o capitalista, empresário ou mesmo assalariado com rendas muito superiores às suas necessidades ou mesmo possibilidade de consumo.

Marx, no entanto, não pretendia apenas analisar (mal, não por culpa apenas própria) e entender (mal, não por culpa apenas própria) a sociedade. Com base em suas análises e entendimento frágeis, Marx se dedicou a prever o futuro e a orientar formas de otimizar as mudanças. Nisso, passamos dos erros para os sonhos e pesadelos.

Marx entende que a história da humanidade é a história da luta de classes. Toda a história da humanidade seria basicamente a história de umas classes explorando outras. Não havendo propriamente meios de produção, os mais fortes (e, na família, os homens), subjugando e explorando os mais fracos (na família, as mulheres). Havendo meios de produção, os proprietários desses meios (notadamente a posse de terra) podiam ter para si excedentes de bens de consumo, como comida, muito além do que poderiam consumir e, assim, podiam, por exemplo, sustentar especialistas, que não se precisariam dedicar à produção de mais alimentos, mas a fazer adornos, servir de seguranças (capangas, exércitos...), glorificadores da classe dominante etc.

Em diversos momentos um modo de produção foi superado por outro, o poder político de uns, calcado em certo tipo de produção, sendo superado economicamente por outro. O exemplo mais próximo de Marx foram as revoluções burguesas, nas quais a aristocracia, cuja base de poder era a posse de terras, foi superada pela burguesia, cuja base era o comércio e indústria.

Com base nesse exemplo mais marcante e generalizações retrospectivas desse fenômeno para outros momentos históricos, Marx conclui que o capitalismo seria o momento mais radical da luta de classes, com mais radical exploração, isso envolvendo uma maior concentração de poder econômico e político num proporcionalmente menor grupo de pessoas, os burgueses, que paradoxalmente, no entender de Marx, dependeriam mais radicalmente do proletariado do que outras classes dominantes. Bastaria o proletariado perceber que os burgueses dependiam deles mais do que eles dos burgueses para que se iniciasse mais ou menos abruptamente (como se pode diferenciar que ocorreu nas revoluções burguesas, contrastantemente nas reformas e revoluções parciais britânicas, de um lado, e na catastrófica e radical revolução - ou sucessão de revoluções - francesa), a revolução do proletariado.

Essa revolução seria difícil, como difícil (e fracassada) foi a comuna de Paris, que Marx teve a oportunidade de aproximadamente acompanhar e que falhou por ter sido um levante relativamente isolado, que teve de se contrapor a toda uma constelação de países capitalistas e mesmo à tendência do revolucionários de regredir a formas mais primitivas de exploração de classe. O grande problema dessa revolução é extinguir a tendência à luta (e exploração) de classes. Para tanto precisa se universalizar (ser estendida e vencida em todos os países relevantes) e, uma vez feito isso, como que atravessar o deserto por uns 40 anos, como segundo a bíblia teria feito Moisés, extinguindo a geração contaminada pela cultura da luta (e exploração) de classe.

Mesmo tendo considerável clareza da dificuldade desse sonho, Marx não se furtou a incentivar o pesadelo de uma tal transição. Pode ajudar a entender o fenômeno a distinção da transição como o período de ditadura do proletariado, no socialismo, e a conclusão do processo na abolição do estado (Marx, enfim, mostra-se um anarquista) no comunismo. O objetivo é o comunismo, mas o meio é o socialismo.

O socialismo assumidamente não é um momento de liberdade, mas de ditadura e guerra. Guerra dos países que iniciam tal revolução contra todos os demais países, ainda capitalistas ou em outros estágios mais primitivos de luta de classes; ditadura (ou guerra civil) dos revolucionários contra os contra-revolucionários dentro do próprio país.

Isso "justifica" o horror que foram ou são todos os casos de socialismo real. Em cada caso, a ditadura do proletariado envolve fiscalizar rigorosamente os cidadãos para identificar os contra-revolucionários e espiões dos países capitalistas e isso significa que haverá muitos policiais, fiscais, delatores e algumas vítimas de mal entendidos que, até esclarecerem que não são espiões ou contra-revolucionários... bem, não raro já terão morrido.

Tanto pior, tal estrutura inevitavelmente paranoica leva a um encastelamento não de uma horizontal democracia participativa na qual o proletariado toma o controle de fato do estado, mas numa estratificação em que poucos membros do partido comunista de cada um dos países do socialismo real encastelam-se com poderes especiais e excepcionais e, tragicamente, tendem a se corromper (e rápido) com tal poder. A burocracia acaba tornando-se uma burguesia, com a desvantagem de que muito mais autoritária e paranoica. E, tanto pior, enquanto a revolução do proletariado não se dissemina entre todos os países relevantes, essa paranoia até que se justifica.

Assim, quem defende o socialismo, deve estar disposto a gerações de sofrimento exacerbado sem muita perspectiva de dar certo. Nesse sentido, é admirável (e outro tanto assustador), que haja gente séria (não é o caso da maioria dos que chama atenção para si próprios como supostamente socialistas ou comunistas) que acredita que isso é possível e que vale a pena.

Uma alternativa para o comunismo, no entanto, é a ampliação das classes médias. O proletariado nunca teve a menor chance de liderar uma revolução. Estavam brutalizados por trabalhos fragmentados em processos complexos dos quais não tinham uma percepção razoavelmente ampla. Iniciadas as revoluções, invariavelmente eram obliterados por pequeno-burgueses educados e espertos. O exemplo mais eloquente disso foi Lênin que eu acredito que sinceramente sonhava com um socialismo que num tempo razoável (algumas poucas gerações) chegasse no comunismo. Mas isso rapidamente se desfez com um atentado no qual ele quase morreu e a partir daí encastelou-se. Seu sucessor, Stálin, não poupou esforços (nem vidas humanas) para evitar ser vítima de qualquer atentado.

Esse é um roteiro ao qual o sonho do socialismo tende fortemente, embora a Rússia pouco tivesse a ver com o que Marx entendia como o lugar ideal para se iniciar a revolução do proletariado - o ideal seria na Inglaterra; secundariamente, poderia começar na Alemanha ou França. Iniciar a revolução em países que sequer eram capitalistas, como Rússia ou Cuba é condenar tais revoluções a lutar contra gigantes capitalistas uma guerra mais ou menos fria sem esperança.

A esperança do levante popular esbarra no fato de que mesmo os mais pobres, hoje, tem considerável poder de consumo que é inevitavelmente prejudicado por economias "de guerra" como as que tipicamente se instalam em países socialistas, preocupados com a fiscalização de seus cidadãos e possíveis espiões estrangeiros. Se houve alguma chance disso ocorrer com os supostamente heroicos (mas embotados) trabalhadores braçais e cheios de filhos da indústria pesada do capitalismo que Marx viu no século XIX, no capitalismo de serviços e classes médias com considerável poder de consumo dos séculos XX e XXI, é ridiculamente inviável. Para começar, mesmo os mais rústicos militantes de esquerda são, na verdade, almofadinhas; revolucionários de boutique - com curiosa predileção por produtos da Apple.


*RÉGIS ANTÔNIO COIMBRA é 1º Vice-Presidente do Movimento Estudantil Liberdade. Filósofo e advogado formado pela UFRGS. Especialista em Direito e Economia e, atualmente, é Acadêmico da Licenciatura em Dança pela UFRGS e Professor no Colégio Tiradentes da Brigada Militar.
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